Bolsonaro terá como desafios na educação a evasão escolar e a distorção idade-série

Bolsonaro terá como desafios na educação a evasão escolar e a distorção idade-série
30 Dez 2018

Do Estadão:

Num país com 11,5 milhões de analfabetos, ampliar o acesso e aumentar a qualidade da educação ainda são demandas atuais. Entre a parcela da população que chega a ingressar na escola, a distorção idade-série e a evasão são grandes desafios, principalmente na rede pública. Assim, uma pequena minoria termina o ensino médio. Falhas impregnadas desde os séculos passados, além de métodos didáticos ultrapassados, minam o interesse de jovens pelos estudos. A desvalorização da profissão de professor é tanto efeito quanto causa de diversas adversidades no campo do ensino. Nesse contexto de desequilíbrios de entrada e permanência gritantes, a educação, que seria a grande ferramenta para combater desigualdades, acaba não tendo a efetividade desejada, especialmente nas áreas mais carentes e vulneráveis.

Assim, problemas sociais se perpetuam e metas não são alcançadas. Entre os maiores desafios que o presidente eleito Jair Bolsonaro precisará enfrentar estão universalizar a educação básica e garantir mais oportunidades de formação técnico-profissional e superior. A principal proposta do deputado federal é transferir recursos do ensino superior para o básico. O programa de governo de Bolsonaro ressalta que os gastos com educação no Brasil são comparáveis aos de países desenvolvidos, mas os resultados estão entre os piores do mundo. Ele propõe uma “reversão da pirâmide” de despesas para priorizar a etapa básica.

Para o ensino superior, o programa prevê parcerias de universidades com a iniciativa privada para desenvolvimento de novos produtos, visando aumentar a produtividade do país. Na avaliação de Daniel Cara, coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação (CNDE), não se trata de uma estratégia adequada. “Essa é uma proposta de quem não conhece a área”, resume. Pesquisa de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstrado a imensidão do desafio. A desigualdade regional no acesso à educação é um dos principais problemas. Enquanto o Sudeste e o Sul têm a menor taxa de analfabetismo, de 3,5%; o indicador no Nordeste é de 14,5%. A média nacional é de 7%.

A dona de casa Maria dos Santos, de 53 anos, enfrentou muitas dificuldades para estudar até a 5ª série. Nascida no sertão baiano, ela chegou à escola só depois de adulta. “Não é fácil. Sobretudo quando se tem de trabalhar para sustentar a família e manter a casa. Muita gente não consegue continuar os estudos ou avançar por não ter condições financeiras e tempo. Não é falta de vontade ou de disposição”, explica. Maria é viúva e, com dois filhos adultos, vive com recursos do programa Bolsa-Família – R$ 184 mensais. Os três estão desempregados. Ela ainda ajuda a cuidar dos netos, Gustavo, de 6, e Arthur, de 9 meses. “Educação é tudo para um bom futuro. Espero que meus netos tenham mais oportunidade do que eu e possam ter uma vida melhor”, torce.

O Plano Nacional de Educação (PNE), lançado em 2014 e com vigência até 2024, busca melhorar essa realidade por meio de 20 metas. Quatro anos após o lançamento, somente uma foi cumprida: o sistema de acompanhamento do plano, por meio de estudos elaborados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Entre as metas do PNE está a oferta de educação inclusiva, a universalização da educação infantil e fundamental, o ensino em tempo integral em, no mínimo, 50% das escolas públicas e a erradicação do analfabetismo absoluto. Atualmente, as instituições que ofertam aulas em período integral chegam 40,1%, por exemplo. Segundo a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, cerca de 30% dos objetivos do PNE foram parcialmente cumpridos.

Quem monitora o setor é categórico: é necessário aprovar um novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) até 2020. Essa seria a melhor ferramenta para diminuir desigualdades regionais e aumentar os investimentos em educação básica por parte do governo federal. “O PNE precisa ser materializado com urgência. A educação básica obrigatória deveria ter sido universalizada até 2016. O texto defende a ampliação de creches até 2024, além da expansão do ensino superior. O documento propõe a democratização e a melhoria da qualidade”, observa Luiz Fernandes Dourado, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (UFG) e integrante do Conselho Nacional de Educação (CNE).

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Anna Ruth
Anna Ruth

Anna Ruth Dantas é jornalista, apresentadora do programa RN Acontece, da Band Natal; produz e apresenta o programa Jornal da Cidade, da Rádio Cidade (94 FM - Natal), e apresenta o programa Panorama do RN (em rede com 16 emissoras de rádio do Rio Grande do Norte). Jornalista de grande credibilidade, atua também como consultora e ministra cursos de midia trainning na Trilhar Educação Corporativa.

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