Partidos derrotados buscam reinvenção após eleição polarizada

Ex-senadora Marina Silva Foto: Agência Brasil
18 Nov 2018

Da Folha:

Que caminho seguirá o espectro que vai da centro-direita à centro-esquerda depois que Jair Bolsonaro (PSL) derrotou Fernando Haddad (PT) e as urnas escancararam a rejeição do eleitor a partidos que fazem um discurso de moderação?

Nem os próprios partidos que ocupam o largo canal entre os candidatos do segundo turno sabem bem para onde vão. Mas o cenário pós-eleições, com o avanço da direita no plano federal, nos governos estaduais e no Legislativo, indica a necessidade de uma reinvenção para ontem, na opinião de lideranças políticas.

Siglas como PSDB, MDB, PPS, PSB e Rede se debruçam sobre as causas do fracasso e discutem como se manter relevantes e qual papel exercer em relação ao novo governo.

“Há mais de um ano eu defendo que o PSDB faça uma reformulação, uma autocrítica”, diz o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). Ex-presidente nacional do partido, ele disse em setembro que a legenda cometeu “erros memoráveis”. Um deles: entrar no governo Michel Temer (MDB).

O futuro dos tucanos está diretamente ligado à ascensão de João Doria. Aliado de Bolsonaro, o governador eleito de São Paulo se movimenta para empurrar a legenda rumo à direita. Fala também em tirar da sigla a pecha de que fica no muro e não toma posição.

Partidos derrotados na eleição também discutem se unir para enfrentar os novos tempos. No entanto, ao longo da campanha, iniciativas nesse sentido falharam. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) tentou articular um bloco para aglutinar candidaturas e fazer frente a bolsonarismo e petismo. Como se sabe, não obteve sucesso.

“Acho que pode vir uma coesão do centro, mas vai depender de como será o relacionamento político e quais serão as primeiras atitudes de Bolsonaro. Se vai entrar radicalizando, se vai moderar”, diz Tasso.
A expressão “oposição democrática” tem sido usada à exaustão por caciques partidários para descrever a relação com o futuro governo. A ordem é agir com responsabilidade, sem fazer um contraponto sistemático ao Planalto.

Blocos nessa linha estão se desenhando no Congresso, com partidos como PDT, Rede, PPS, PV, PSB e até de siglas distantes do centro do espectro, como o esquerdista PC do B. Membros poderiam votar com o novo governo em pautas como reformas econômicas, mas buscariam marcar posição em temas como direitos humanos e respeito às liberdades.

A intenção é constituir uma oposição sem o PT, ideia defendida pelo ex-presidenciável Ciro Gomes (PDT) e que conta com a adesão de siglas que querem abandonar o guarda-chuva do partido de Haddad.

O MDB, por anos fiel da balança de qualquer governo e que saiu menor e menos relevante das urnas, aposta na eleição de Renan Calheiros (AL) para a presidência do Senado para garantir algum protagonismo no governo Bolsonaro.

Presidente nacional do PDT, Carlos Lupi diz que o papel de terceira via assumido por Ciro, o terceiro colocado da eleição, continuará sendo necessário. “Tivemos a onda que elegeu Lula e agora a que deu vitória a Bolsonaro. É cíclico. Daqui a pouco vira de novo.”

Lupi compartilha do entendimento de que o candidato do PSL deu um baile na velha política ao estabelecer comunicação direta com os eleitores. “Deveríamos ter trabalhado com mais eficácia a rede social. Isso o Bolsonaro conseguiu”, constata o líder do PDT.

“O ciclo de governos mais progressistas se encerrou com uma crise profunda das instituições e partidos”, diz o presidente nacional do PPS, Roberto Freire. “A política tradicional foi derrotada”, segue ele, que tem mandatos há 44 anos, é suplente de deputado federal e não conseguiu uma vaga na próxima legislatura.

Para se manter no time das legendas “que serão ouvidas e terão espaço lá no futuro”, nas palavras de Freire, o PPS aposta na refundação do partido, processo que já estava em curso e agora se mostrou urgente.

A metamorfose, que inclui troca de nome (“Movimento” é uma opção), se dará com a adesão de membros do Agora!, do Acredito e do Livres, grupos que erguem a bandeira da renovação política, e com a possível fusão com a Rede.

A legenda da ex-senadora Marina Silva está com a sobrevivência ameaçada porque elegeu só uma deputada federal e, com isso, não superou a cláusula de barreira. A consequência é a restrição no acesso a recursos do fundo partidário e ao tempo de televisão.

Embora ainda falte a palavra final, tudo se encaminha para a união dos dois partidos. O molde também é incerto, já que, pela lei, só siglas com no mínimo cinco anos de registro podem se fundir. Oficializada em 2015, a Rede tentará na Justiça derrubar a regra.

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Anna Ruth
Anna Ruth

Anna Ruth Dantas é jornalista, apresentadora do programa RN Acontece, da Band Natal; produz e apresenta o programa Jornal da Cidade, da Rádio Cidade (94 FM - Natal), e apresenta o programa Panorama do RN (em rede com 16 emissoras de rádio do Rio Grande do Norte). Jornalista de grande credibilidade, atua também como consultora e ministra cursos de midia trainning na Trilhar Educação Corporativa.

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